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O
Encontro de Mozart com as crianças do Maranhão
Por Ceres Murad
Trabalhar
ópera com crianças é uma experiência
única. A princípio, pode-se pensar: "Mas,
ópera? Crianças brasileiras?" Resistência
inicial do adulto. Preconceito talvez.
Mas a ópera e tão nova para as crianças
como qualquer ritmo ou estilo musical. O mundo é
novo para elas. E elas estão abertas para o novo.
Não há tabu. A expectativa de que elas
poderiam reclamar - "podia parar de cantar, ta
longo demais!" - é totalmente infundada.
Desde
o momento do lançamento desse projeto, com a
projeção para as crianças da montagem
de Ingman Bergman no telão, a reação
delas nos surpreendeu. Completamente deleitadas, emocionadas
com cada ária, excitadas ou ansiosas nos momentos
de perigo, as crianças nos deram uma grande lição
de sensibilidade.
A ópera educa o sentimento, porque é capaz
de traduzi-lo em acordes musicais. Na ópera,
cada movimento de orquestra, cada nota corresponde a
uma ação: ou é passar da carruagem,
ou o monstro que persegue, ou o amor que dilacera o
coração, a ira, a fuga - tudo tem melodia.
É
por isso que ópera vicia - quem se habitua a
ver ópera, que espera que todo drama seja acompanhado
pela música que ajuda a fazer desabrochar o sentimento
dentro do peito. Quando não há, faz falta.
E imagine o que é ter a emoção
o conduzida dessa forma pelos grandes gênios da
música! Somos afortunados de ter herdado essas
obras das gerações passadas. É
isso que Mozart faz em "A Flauta Mágica".
Cada acorde nos ajuda a sentir, e a sentir de modo diferente.
Cada
ária, os coros, a abertura, são compostos
de modo tão apropriado a cada circunstância,
e de forma tão peculiar a cada um desses momentos,
que às vezes a gente se indaga, intrigada - "Foram
compostas pela mesma pessoa"? - habituados que
estamos a tantos e tantos "modenos" que compõem
em torno de uma mesma harmonia por anos a fio. E pensar
que Mozart não compôs apenas óperas,
mas sonatas, sinfonias, concertos...
Esta
adaptação que fizemos para crianças
reduz "A Flauta Mágica" para aproximadamente
uma hora de duração, numa simplificação
para um tempo em que nos acreditávamos que as
crianças capazes de apreciar sem cansar. Mero
engano, a cada ensaio elas reclamavam a falta de um
ou outro detalhe que suprimimos. De repente, nos pareceu
que nos simplificamos por causa dos adultos, e não
por causa delas, que queriam a ópera inteirinha.
A
experiência de dirigir as crianças na montagem
do espetáculo foi formidável porque elas
são extremamente sensíveis. Quando ouvem
a ária, não é preciso dizer muito
que expressão precisam fazer, elas sentem e sabem.
Quando, por exemplo, a Rainha da Noite, , entra em cena,
ao som daquela ária de Mozart compôs para
sua cunhada capaz de agudos altíssimos, que se
tornou popular entre nós na voz de Edson Cordeiro,
não é preciso dizer ã princesa
o que fazer, ela se encolhe no cantinho assustada, morta
de medo e a Rainha da Noite, poderosa, é dona
da cena, esbraveja e bate o pé, sobrancelhas
em riste.
Num
outro momento, é impossível impedir o
elenco de aplaudir o abraço apaixonado do príncipe
quando encontra sua princesa.Mozart caprichou nos acordes
suaves e densos. A emoção toma conta das
crianças. Essa cena tinha que ser ensaiada todos
os dias. E não havia ensaio sem música,
elas não aceitavam. São crianças
de seis anos, que passavam horas ouvindo música
sem pressa de ir embora. E estavam ouvindo música
erudita da melhor qualidade.
A
ópera ensina que música é emoção,
mas também é ato. Isso estimula a imaginação,
ensina as crianças a perceberem a sutileza dos
arranjos, que representam ações de verdade.
E quando elas ouviam só a música, sem
o vídeo ou sem a representação,
fechavam os olhos, habituando-se a imaginar o movimento,
a fantasiar o que estava acontecendo, a "sentir"
o que a música queria expressar. E acabam fazendo
isso com outras músicas. Isso é educar
pela arte. E é por isso que valorizamos tanto
esse tipo de atividade na escola.
Ao
longo dos ensaios, percebemos que houve crianças
que incorporaram tanto o seu personagem, que às
vezes nos questionamos se elas são assim mesmo
ou estavam representando. O nosso Papagueno é
um desses casos. No improviso, ele é melhor do
que o "script", o jeito desligado, ingênuo,
que não pode deixar de dar aquela cocadinha na
perna, mesmo no palco, com toda a imponência da
música. Isso é o Papagueno de Mozart,
suas árias abrem espaço para essa espontaneidade,
e Caio, nosso pequeno ator, compreende e incorpora esse
clima sem que isso precise ser dito a ele. Nada de teorias
sobre o perfil do personagem - a música o fez
sentir o que fazer.
Dessa
forma, vimos que, a despeito da complexidade de ter
que fazer cada acorde corresponder a cada ação,
gesto ou expressão, como exige uma ópera,
é muito fácil dirigir crianças
nesse gênero, muito mais que no teatro, porque
elas são muito transparentes, a música
penetra integralmente e conduz por si só o espetáculo.
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