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Carmen
de Bizet por crianças
Por Ceres Murad
Na
Sevilha do século XIX, uma mulher cigana desafiava
as regras da Espanha para viver de acordo com suas próprias
percepções. A personagem criada por Georges
Bizet se contrapunha à sociedade da Espanha da época.
Até hoje ela se identifica com as mulheres por conta
de sua atemporalidade, independência, feminilidade e
coragem - sem esquecer da intensa sensualidade que emana da
mais conhecida ópera de todos os tempos.
Este é o cenário do espetáculo que os
alunos da pré-escola do Colégio Dom Bosco apresentarão
hoje, no palco do Teatro Maria Izabel, no Renascença.
Dirigida pela professora Ceres Murad, a peça traz 60
crianças no elenco, todas com seis anos de idade, que
fazem parte do projeto Dom Bosco - Ópera para Crianças
– desenvolvido pela professora com o apoio dos pais
e o entusiasmo dos alunos.
Para compor Carmen - uma mulher à frente de seu tempo
na antiga Espanha – Ceres Murad buscou ressaltar a feminilidade
e a inteligência da cigana. Carmen morreu por prezar
sua independência e exercitar de forma acintosa para
a época, sua liberdade. “Adaptar a personagem
para uma criança de seis anos tornou-se fácil
por ser Carmen uma mulher de diversas facetas. Procuramos
então destacar sua atuação como cigana
e sua paixão pela vida e pela liberdade, coisa que
as crianças absorveram, percebendo como a personagem
amava sua forma de viver”, afirma a diretora.
Sem preconceito – A encenação
de “Carmen” pelos alunos do Dom Bosco traz à
tona o óbvio: as crianças não têm
preconceito contra a música erudita; ao contrário,
apaixonam-se pelas árias cantadas a cada ensaio, externando
satisfação por participar da montagem. Para
a professora Ceres, essa alegria é dupla:
- Carmen proporcionou às crianças não
só um encontro com a cultura espanhola – elas
conheceram as danças, as touradas, as castanholas,
trabalhando com cerca de 60 instrumentos. E também
puderam ter contato, através da ópera com a
música, com a literatura, as artes cênicas e
as danças.
Entendemos que essa multiplicidade de enfoques só faz
aumentar a sensibilidade das crianças, principalmente
que se levarmos em conta que a feitura da peça contou
com a colaboração de todos os atores, que compuseram
seus personagens e estão dando tudo de si para apresentar
mais um espetáculo para os pais e a comunidade –
diz Ceres.
Os atores – mirins também são detalhistas
quanto ao que pensam da ópera. Para Daniel Santos,
o mais importante foi “conhecer Sevilha através
do pensamento. Gostei mais da ária do Escamilo. Ouvindo-a,
sinto que estou numa tourada e o meu coração
bate mais forte”, diz ele. Já Paula destaca que
se deixa envolver pelas árias. “As músicas
são relaxantes. Ouvindo-as, sinto como se estivesse
assistindo a dança de Carmen, o som entra na minha
imaginação, no meu coração, no
meu pensamento, até na minha inteligência. Se
tivesse no rádio músicas assim, elas faziam
a gente dormir feliz”.
A diretora corrobora falando que a ópera “Carmen”
realça a intuição, característica
essencialmente feminina destacada pelas ciganas da peça
e que ganhou importância crucial na obra desenvolvida
por Bizet. “Fizemos um trabalho em que as crianças
captam sentimentos pela música e a cada momento da
estória e passam por diferentes sensações.
Conseguimos nossos objetivos: despertamos as crianças
para a importância do respeito à arte e pela
música erudita, sentimentos que só engrandecem
e as fazem crescer espiritual e intelectualmente”, finaliza
Ceres Murad.
Fonte:
O Estado do Maranhão. São Luís, 28 de
novembro de 1998.
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