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Aula
de Sensibilidade e Arte
Por Ceres Murad
O
Projeto "Dom Bosco Ópera para Crianças"
nasce nas classes de alfabetização desde os
primeiros meses do ano, quando as crianças lêem,
com a professora, o libreto em capítulos, num clima
de suspense e envolvimento com os fortes personagens desse
tipo de drama.
A construção de personagens é uma primeira
etapa do projeto, que passa pelo desenho e a caracterização
psicológica de cada um, por intuição
ainda, pois que esse trabalho é proposto desde os primeiros
momentos, quando os personagens ainda não se revelaram
por inteiro, o que o torna um trabalho de criação
e imaginação, ao mesmo tempo que um exercício
de raciocínio, que prepara as crianças para
a escrita futura de textos de autoria, com a elaboração
de tramas dotadas de lógica e sentido.
Ampliar os horizontes das crianças, com o acesso ao
material rico de uma ópera, que inclui música,
uma trama, situação histórica, lugares
peculiares, visual de época e, principalmente, a força
dramática de personagens muito reais, humanos, ou mesmo
caricatos, como é o caso de uma ópera bufa,
é de um valor inestimável para a ampliação
não só do universo cultural, como de situações
de vida, que ajudam as crianças a se desenvolverem
com juízo e discernimento
Carmen trouxe a questão da ética, deixando as
crianças lidarem com coisas como o ciúme e a
mentira. O Barbeiro traz a avareza e o interesse pelo dinheiro.
Pensar que as crianças não penetram na grandeza
desses temas é ingênuo.
Com que maturidade elas os enfrentam, escrevendo depoimentos
como "Aprendi com Carmen que não se deve enganar"!
Ou quando se identificam com o Bartolo, repetindo "quanto
mais eu a amo, mais ela me despreza!"
Numa ópera, os personagens são envolventes,
em especial, porque a música, cada ária, como
que fala da personalidade de cada um. Nisso reside o gênio
desses grandes compositores.
E as crianças, que as ouvem todos os dias, se identificam
espontaneamente com cada um deles e logo surgem os "Papaguenos",
as Carmens" e os "Fígaros" em sala de
aula.
No telão, as crianças assistem a várias
montagens das óperas, com diferentes intérpretes,
orquestras, o que as habilita a fazerem comparações,
apurando a capacidade de dicernir e comparar melodias, escolher
árias prediletas e, principalmente, de sentir através
da música.
As composições extremamente plásticas
das óperas sugerem movimento e esse é um elemento
importante para entreter crianças dessa idade com uma
história. As mulheres dessas óperas, tanto Carmen
como Rosina, por exemplo, são heroínas atuais,
atentas ao mundo e aos seus desejos, nada têm de princesas
de contos de fadas. À sua época, as óperas
eram muito populares, falavam muito de perto à gente
comum, por isso atravessaram os séculos.
Não poderíamos ter textos mais apropriados para
dar suporte à alfabetização, não
apenas pela diversidade com que é possível trabalhar
- narrativas, descrições, apreciações
- como pela influência de escrita que a emoção
e o caráter de verdade da trama faz suscitar.
A estruturação do texto é apoiada pela
música que elas ouvem todos os dias, e a lógica
e seqüência da narrativa são como que "ditadas"
pelas árias, pelas melodias.
Com efeito, um dos produtos desse projeto é o livro
que as crianças escrevem, com uma primeira parte com
descrição de cada personagem, uma segunda parte
com o reconto do libreto em capítulos e finalmente
textos apreciativos sobre as árias.
Depoimentos extraordinários têm sido colhidos
nesse trabalho, como "A ária do toureiro me faz
sentir na praça de touros em Sevilha". Ou "a
ária de Carmen me faz chorar".
É verdade que a emoção que transmitem
as composições fortes como as de uma ópera
dão às crianças uma capacidade de interpretação
do sentido e da dramaticidade das cenas através dos
acordes mais ou menos intensos e vibrantes, as melodias ensinam
sobre o modo de ser de cada personagem - como é o caso
de Fígaro - os acordes fortes e breves que dão
o tom cômico, esperto que o caracteriza, ou os acordes
ao mesmo tempo melodiosos e vibrantes das árias sensuais
de Carmen.
Aula de sensibilidade. Isso é trabalhar uma ópera
com crianças de seis anos de idade. A transparência
com que elas captam essas emoções e as passam
para o papel, com redação própria, ou
retratam em seus desenhos tão cheios de detalhes, nos
emociona e entusiasma.
O sucesso dos espetáculos é resultado do envolvimento
de todo o grupo - crianças, professoras de classe,
de música, de dança e coordenadoras, além
dos pais que se envolvem inteiramente com o projeto. Isso
tudo nos incentiva a mais e mais montagens. Ir adiante é
um pouco fruto de uma curiosidade - Que mais teremos nós
a aprender com elas?
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