Uma aventura de educação e arte
Por Ceres Murad

É com muita alegria que apresentamos mais um espetáculo do Projeto Ópera para Todos em São Luís, uma terra onde se cultiva o amor pelas letras, sedimentado há gerações, onde se cultiva a poesia, a literatura, a música popular de excelente qualidade, de tradições de dança, manifestações populares de valor inestimável, do canto que seduz gerações de jovens para o coral, do teatro que alimenta por décadas platéias exigentes e que é hoje um monumento que nos distingue.

Sinto particular orgulho desta terra de artistas e intelectuais. Não por acaso aqui floresceu este projeto de alfabetização pela ópera, neste berço propício às produções culturais de variada gama. Porque ópera é tudo isso - música, dança, canto, teatro e literatura. Precisávamos aliar a todas essas expressões um viés extremamente importante, o viés estruturante das sociedades - a educação.

Nada do que se faz em arte ou qualquer outra ação humana pode ser fruto apenas de diletantismo, gênio ou improviso. Aquilo a que não se aliam iniciativa consistentes no campo da educação não vinga, não prospera, não perdura. Desse esforço depende o desenvolvimento das sociedades.

Se vivemos nos dias de hoje uma crise do conceito de progresso e desenvolvimento, em razão dos recentes acontecimentos que têm redimensionado a nossa visão do mundo, uma idéia nos parece irremediavelmente ligada à noção de futuro, o respeito ao sentimento, ao outro, a sensibilidade, o belo, tudo aquilo que, enfim, está contido na arte. Esse é um valor jamais fora de uso.

Acreditar em sonhos é uma das mais venturosas capacidades do homem. E, como dizia o poeta e pedagogo Carlos Brandão, maldito o educador que não sonha todas as noites.
Quando pela primeira vez pensamos em utilizar óperas como material para alfabetizar crianças, era porque acreditávamos no potencial emocional dessas obras e não podemos conceber a atividade de ler e escrever sem emoção. Hissope seco e sem vida, como diria Pascal, é a escrita sem emoção. Inútil e árida, graveto que se dobra e se descarta.

Como fazer as crianças compreenderem que se aprende a ler é para expressar sentimentos? Fazendo-as sentir com todo o seu ser as mais profundas emoções, guiadas pelos maiores mestres que a humanidade conheceu na arte de emocionar, os grandes compositores.
Aliar aprendizagem e prazer é o desejo de todo professor. A arte é a ponte. E a ópera, o mais poderoso desses instrumentos.

É com satisfação, mas talvez sem muito espanto, que vemos este projeto crescer ano a ano. O que vemos acontecer com o Projeto Ópera Para Todos é algo que as nossas crianças já haviam nos antecipado, com a sua irrestrita adesão a esse trabalho, desde a primeira turma, há cinco anos.

A atividade do educador difere de certa forma da do artista profissional, que se aperfeiçoa ao longo do tempo. O educador vê a cada ano surgir um elenco inteiramente novo com o qual ele reinicia todo o trabalho incansavelmente. Mas sua paga é igualmente imensa. As gerações que se formam através de suas mãos o cativam com aquele entusiasmante olhar de quem vê algo muito grande e bonito pela primeira vez.

Mas para o artista profissional este trabalho é um sinal de esperança. Temos descoberto talentos extraordinários ao longo destes cinco anos. Uma nova geração de seguidores seus aqui se educa Mas não só, também uma boa e vibrante platéia, ávida por outras produções.

Ao longo destes anos, temos partilhado, com emoção e sentimento, reflexões e idéias com os nossos pequenos e muitas vezes nos surpreendemos com a capacidade deles de assimilar o sentido das ações humanas, inscritos nas tramas de uma ópera.

A sabedoria que os anos nos conferem nos faz então nos darmos conta de que, em verdade, não somos nós que ensinamos. O grande segredo é o muito que podemos aprender com eles. Mas o melhor de tudo é, principalmente, o quanto a gente se diverte nessa aventura.